Seguros de saúde: subida dos custos força aumento dos prémios

O negócio dos seguros de saúde continua em 2010 a ser dos que mais cresce, mas há um problema por resolver para a maioria das seguradoras: deixar de perder dinheiro, avança o i online.
"Na área da saúde, nos últimos 15 anos não houve um em que, em média, as seguradoras tenham tido resultados positivos", aponta Pedro Seixas Vale, presidente da Associação Portuguesa de Seguradoras. Para inverter a situação é inevitável aumentar os prémios dos seguros de saúde? "Também, assim como controlar os custos", disse ao i o líder da APS, na apresentação dos resultados do sector no primeiro semestre. Em Portugal, há dois milhões de pessoas com seguros de saúde.
A subida gradual dos prémios e a necessidade de controlo dos custos assumida pelo representante do sector segurador, surge na mesma altura em que se debate a proposta do PSD de eliminação do carácter "tendencialmente gratuito" do Serviço Nacional de Saúde (SNS). A expansão dos cuidados em Portugal - quer no SNS, quer no lado dos privados - levou a melhor oferta e ganhos de saúde pública, mas também a um crescimento significativo da despesa dos portugueses nesta área. Em 2007, Portugal gastava cerca de 10% do Produto Interno Bruto em saúde, a sexta factura mais alta na zona euro, acima de países como o Reino Unido, Suécia ou Itália.
Para o presidente da Associação Portuguesa de Seguradoras, parte da subida da despesa no capítulo dos seguros deve-se a um problema de comportamento de alguns consumidores, que não encaram o seguro como uma cobertura de risco para acontecimentos aleatórios, mas sim para gastos nem sempre essenciais, esgotando consistentemente o plafond.
Por outro lado, há a forma como estes seguros se posicionam, vendendo a garantia de acesso ao conforto e qualidade da rede privada de saúde. "Existe actualmente uma tendência crescente para estas [privadas] estarem aptas a dar resposta a cenários clínicos que antes recaíam exclusivamente no âmbito do Serviço Nacional de Saúde", esclarece, em declarações ao i, a Médis, do grupo Millenniumbcp, um dos líderes de mercado em Portugal.
Mas, tal como no SNS, tratamentos e meios de diagnóstico mais inovadores avançados custam dinheiro. "Neste contexto, não é de estranhar que as taxas de sinistralidade associadas aos seguros de saúde apresentem uma tendência crescente, com níveis superiores a 80%, o que tem forte impacto nas contas de exploração dos seguradores", aponta a Médis.
As taxas de sinistralidade nos seguros de saúde são mais altas no segmento não-vida - em 2009 foi de 87,5% (subida face aos 84% de 2008), bem acima da média geral de 73% de todo o segmento não vida - que inclui seguros de saúde, mas também de automóveis, contra acidentes pessoais ou de habitação, por exemplo.
Nos últimos anos, a soma dos custos de operação com os implicados pela taxa de sinistralidade tem sido desfavorável para a média do sector. Em 2009 o rácio combinado foi de 106,4%, ou seja, em média, e por cada 100 euros de receitas de prémios recebido pelas seguradoras, houve cerca de 106 euros de despesas.
"A tendência é sempre para haver uma subida gradual do preço, por um lado devido à subida da inflação, mas sobretudo com o ajuste dos prémios em função da sinistralidade do sector", indica Mónica Dias, especialista em seguros da Deco - Proteste. Nos últimos anos - com o sector a liderar o crescimento do negócio no segmento não vida, - as seguradoras têm optado por não subir os preços. "Há muitos produtos novos, o que torna difícil a comparação, mas em geral temos notado uma subida de preços muito pouco acentuada", acrescenta Mónica Dias.
Onde haverá um aumento de custo significativo será "na revolução nos seguros que aí vem, com a introdução dos seguros vitalícios", sublinha a técnica da Deco. O projecto de lei saiu da fase de consulta pública na semana passada. As seguradoras já alertaram para os prémios muito elevados (superiores a 500 euros por mês) que acompanharão essa modalidade, sendo que as empresas poderão escolher se aderem à novidade. Actualmente os contratos de seguros podem ser unilateralmente cancelados a partir de idades consideradas demasiado arriscadas pelas empresas - "a maioria das companhias cancela os seguros de forma unilateral quando o consumidor atinge os 65 anos", sublinha a Deco/Proteste num estudo publicado este mês.
Além da subida dos prémios, as seguradoras podem também "negociar com os prestadores de serviços" a descida dos custos, aponta Seixas Vale. Para os gestores de algumas das principais redes de hospitais privados contactados pelo i, como a Espírito Santo Saúde ou a HPP, esse é um cenário normal. "Tem sido sempre assim, faz parte das regras do mercado", afirma José Miguel Boquinhas, presidente da HPP. Um quarto dos doentes atendidos no seu grupo chegam por via dos serviços de saúde.






