Luís Portela: "Hoje se quisesse começar, não começava em Portugal"

Aos 27 anos, Luís Portela desistiu do sonho de usar a ciência para descobrir a verdade e decidiu liderar o laboratório farmacêutico fundado pelo avô em 1924, conta o jornal i. Fez um pacto consigo mesmo: o dinheiro que sobrasse ajudaria a cumprir o projecto adiado, ainda que pelas mãos de outros. O círculo começa a completar-se. A Fundação Bial, que criou em 1994 para apoiar a investigação científica na área da neurofisiologia, com um carinho especial pelos segredos da mente, já deu bolsas a 1050 investigadores de mais de 30 países. Um deles pode ter feito a diferença.
"Hoje não começava, e se quisesse começar, não começava em Portugal", desabafa, em entrevista ao jornal i. Aos 58 anos, o presidente do maior grupo farmacêutico do país não guarda lugar para arrependimentos: "Soube ouvir os sinais da vida." Mas é firme nas críticas: "Portugal tem de se definir. É preciso racionalizar o sector, mas medidas restritivas avulsas, às vezes eleitoralistas, matam uma indústria que é importante para a saúde pública." Nos últimos 17 anos, investiu 300 milhões de euros para pôr no mercado o primeiro medicamento de raiz portuguesa, o antiepilético Zebinix®. Hoje não teria conseguido fazê-lo, nem teriam avançado os projectos para outros cinco medicamentos inovadores: "Nunca nos passou pela cabeça um cenário tão mau como o que viemos a encontrar. Em 2003 tivemos medidas restritivas bárbaras que nos puseram em cheque tudo o que estávamos a fazer."
Tem um escritório com janelas enormes com vista para um pinhal em S. Mamede do Coronado, perto da Maia. Numa das paredes expõe condecorações, diplomas, distinções - uma montra recheada que quase passa despercebida. Alguma vez sentiu cobiça alheia? "Que temos sido acarinhados é verdade. Se há outras pessoas que também gostariam, acho saudável. Quando nós procuramos fazer as coisas bem, alguns à volta podem olhar para o nosso caso e querer segui-lo. Pode não ser pelos melhores meios, mas se não é por uns é por outros", diz ao i.
Numa manhã de sexta-feira, há um cheiro forte a baunilha no laboratório de investigação da Bial. Luís Portela veste uma bata de pano, que se destaca entre as demais descartáveis. Pelos corredores ouve-se "bom dia senhor doutor". Há uma calma que se prolonga do homem para o espaço.
Quando começou, tinha de dar em quantidade aquilo que não tinha em qualidade, conta. Mas o percurso académico deu-lhe boas ferramentas. Ser médico de formação, por exemplo, ajudou-o a lidar com a pressão da indústria e os conflitos éticos: "Eu sou médico de formação, sinto-me dos dois lados", confessa ao i.
No início, desconfiaram que tivesse capacidade de gestor. O pai, António Portela, assumiu a presidência da Bial em 1962 e morreu dez anos depois. "Abandonei a minha carreira para agarrar a Bial. Tinha uma bolsa para ir para Cambridge fazer o doutoramento, mas parece que a vida me estava a empurrar para ficar." Depois do 25 de Abril, a indústria farmacêutica estava para ser nacionalizada, lembra. A Bial estava com pequenos prejuízos ao longo dos anos. De uma cota de 31%, empenhou-se para tornar-se sócio maioritário e assumiu a presidência aos 27 anos, com medo que a obra da família "desmoronasse." Não o fazia por mais nada.
Comove-se com uma pergunta simples: com o crescimento da empresa, nunca pensou em vendê-la? "Quando estamos apaixonadamente envolvidos num projecto, vamos largá-lo para quê? Por causa de um saco de notas?". Evita nomes e valores, mas um dia - quando já recusava atender potenciais compradores - bateu-lhe à porta uma multinacional. "Quando dei por mim estavam a oferecer-me três ou quatro vezes mais do que eu ganhava na altura, dois carros, uma moradia com piscina e dois guarda-costas para eu ir viver para São Paulo. Disse-lhes, 'agradeço, mas eu estou ligado ao projecto Bial, não sou só o director.' Responderam: "Também temos solução para isso, estamos interessados em comprar a empresa." Estava fora de questão: "O que me faz feliz é ter desafios pela frente e uma equipa fantástica que faz das tripas coração para superar tudo", diz ao jornal.
Desbravar terreno O empenho científico valeu-lhe reconhecimento no estrangeiro. A cada dois anos, o simpósio "Aquém e Além Cérebro" faz o ponto de situação na parafisiologia - a próxima edição está marcada para Abril. "É, de muitas formas, a fundação mais importante do mundo na área", diz ao i o porta-voz da Associação Parapsicológica, Stephan A. Schwartz, uma referência na área.
Para Luís Portela, o interesse no inexplicável, conotado com algum esoterismo e tradicionalmente desligado da ciência, partiu sempre da confiança no método científico. "Achava que um mistério é uma coisa que ainda não se conhece." Confessa ter tido experiências que o abalaram, mas a postura mantém-se. "Não me considero um homem religioso. Sinto-me sim um espiritualista. Tenho a convicção firme de que a passagem pela Terra é efémera, de uma realidade que existia antes e vai continuar a existir depois."
No futuro, espera que os preconceitos nesta área continuem a cair: "Desbravar terreno é só levantar o véu da ignorância. As chamadas verdades de La Palisse foram muito amargas para alguns. Enquanto não se procurar de uma forma forte, ajustada, desempoeirada, andamos aqui todos um pouco enganados."
Ter começado cedo deu lugar a muitos erros, mas o saldo é positivo. Começou a conhecer os cantos à casa com 17 anos, duas horas por dia a pedido do pai. Durante boa parte da carreira começava a trabalhar às 6h30, muitas vezes sem parar no fim-de-semana. Há dez anos, um problema cardíaco grave fê-lo travar.
Aprendeu a ter tempo para encontrar-se a si próprio e começou a escrever. Numa das crónicas publicadas em 2008 pela ASA cita Bertold Brecht. "Os homens que lutam toda a vida são os imprescindíveis". Sente-se imprescindível? "Eu acho que uma das maiores obrigações de um gestor com a minha idade é ponderar a continuidade do projecto depois de sair. Penso deixar de exercer as funções de presidente executivo daqui a não muitos anos." Não diz, mas já sabe quando.






