Diabetes: nos últimos 20 anos número de doentes em Portugal quadruplicou

O "aumento impressionante" da doença em Portugal, a sua contenção ou as principais novidades nos tratamentos são temas em debate no 9.º Congresso Português da Diabetes, a realizar entre esta quarta e sexta-feira em Vilamoura.
O presidente da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD), José Manuel Boavida, disse à agência Lusa que a doença em Portugal "tem registado um aumento impressionante" e "nos últimos 20 anos deve ter quadruplicado o número de doentes com diabetes".
"Para dar uma ideia, um médico de família tinha em média 30 a 40 diabéticos na suas listas de doentes e hoje tem 100 a 120, quatro a cinco vezes mais do que acontecia há 20 anos", afirmou José Manuel Boavida, dizendo que o Congresso vai analisar as medidas de prevenção e "o aumento impressionante da diabetes".
Boavida frisou que, relativamente a este tema, vai realizar-se no segundo dia de trabalhos um simpósio sobre "A situação da diabetes em Portugal", que vai ser presidido pelo director geral de Saúde, Francisco George.
"Vão ser discutidas as questões de quantos diabéticos há em Portugal, como é a sua vida e qualidade de vida, quanto custam e o que é que o Ministério de Saúde e o programa nacional de prevenção e controlo da diabetes têm planeado neste âmbito", adiantou.
O presidente da SPD disse também que, no que respeita às novas ideias e novos tratamentos, “vão ser abordados aspectos relacionados com a terapia genética na diabetes, a importância das bombas de insulina, a importância cada vez mais presente do intestino e das hormonas produzidas no intestino como aspectos relevantes e que irão fazer as grandes novidades dos próximos anos".
José Manuel Boavida disse ainda que vão ser debatidos “temas polémicos”, nos quais se discutirá se a progressão da doença pode ser travada através da adopção de estilos de vida saudáveis, se a introdução de medicamentos em fases mais precoces da doença é benéfica ou se as novas insulinas merecem o que se paga por elas.
O dirigente da SPD destacou ainda um simpósio sobre direitos de pessoas com diabetes, que contará com o provedor de Justiça, Alfredo José de Sousa, e palestras de "nomes de grande relevo internacional”, como Phillipe Froguel, “o pai da educação dos doentes com diabetes”, ou Rhys Williams, “um dos maiores epidemiologistas mundiais”.
Freguesias mais carenciadas e com mais idosos têm maior prevalência da doença
As freguesias com mais idosos, desempregados e com zonas de grandes declives possuem factores que podem justificar o aumento da prevalência da diabetes, indica um estudo que analisou a ligação entre o contexto geográfico e a doença.
Por outro lado, o cidadão rural tem hábitos de lazer e de alimentação diferentes do cidadão urbano, que fazem com que tenha menor prevalência da doença.
O estudo, que será divulgado no XIX Congresso da Sociedade Portuguesa de Diabetologia e a amostra foram os doentes internados nos Hospitais de S. João, Santo António, Santos Silva, Espinho e Pedro Hispano entre 2000 e 2007.
“A amostra que estamos a trabalhar subestima o problema, porque são casos de diabetes identificados porque os doentes foram ao hospital”, disse à agência Lusa a coordenadora do estudo, a geóloga Ana Monteiro.
O estudo teve em conta um conjunto de variáveis que pareceram poder condicionar o agravamento ou a persistência de diabetes: áreas muito declivosas, índice de envelhecimento, taxa de actividade, desemprego elevado e rendimentos de apoios sociais elevados.
“O modo de vida urbana não é convidativo a mitigar as consequências que levam ao agravamento da diabetes”, disse Ana Monteiro, explicando que o modo de viver nas cidades não propicia ao tratamento da diabetes, que tem de ser combatida com exercício físico e alimentação equilibrada.
Segundo a geóloga, verifica-se uma “diferença considerável” do peso da diabetes no Porto, comparativamente com a GAMT, que inclui vários concelhos rurais.
“Quando comparamos a diabetes no total dos internados, também os do Porto são superiores aos da Grande Área Metropolitana do Porto”, sustentou.
No caso do Porto, há uma coincidência entre as freguesias que têm maior taxa de desemprego, mais apoios sociais, idosos e zonas com maiores declives e a prevalência da diabetes.
“Há uma sobreposição entre a presença desses indicadores e as freguesias que, no caso do Porto, registaram mais de sete% de pessoas internadas com diabetes”, justificou.
Para José Luís Medina, da Sociedade Portuguesa de Diabetologia, estes dados demonstram “preocupações que já existem há algum tempo” e revelam a necessidade de uma maior aposta das autarquias em actividades de lazer e desportivas.
“A diabetes tem uma prevalência muito elevada em Portugal (11,7%) e a luta contra esta doença tem de ter vários intervenientes, não apenas os profissionais de saúde”, frisou.
O Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes indica que o número de doentes internados no Serviço Nacional de Saúde, em que a diabetes se assume como diagnóstico principal ou associado, aumentou 85% entre 2000 e 2008.
A patologia assume um papel significativo nas causas de morte: se em 2000 o impacto da diabetes nos óbitos era de três%, em 2008 aumentou para 4,1%.
A diabetes é uma doença crónica que se caracteriza pelo aumento dos níveis de açúcar (glicose) no sangue e pela incapacidade do organismo em transformar toda a glicose proveniente dos alimentos. À quantidade de glicose no sangue chama-se glicemia e quando esta aumenta diz-se que o doente está com hiperglicemia.






