Paulo Macedo “deve estar manietado pelo insensível ministro das Finanças”

19/03/2012 - 09:31


O fundador do Serviço Nacional de Saúde (SNS), António Arnaut, afirmou sábado, em Coimbra, que “o governo submeteu o SNS à tortura do ‘leito de Procusta’, sujeitando-o à desumanidade da sua visão neoliberal e mercantil”, avança a agência Lusa.


António Arnaut deixa fora da metáfora da medida única, daquela “conspiração, as pessoas de bem, que há nos dois partidos da coligação” governamental, entre os quais incluiu, “embora com alguma hesitação”, o titular da pasta da Saúde, Paulo Macedo, “porque ele deve estar manietado pelo insensível ministro das Finanças”.


O sector privado tem “um importante papel complementar na prestação de cuidados de saúde, mas não deve parasitar ou viver à custa do sector público, através de convenções espúrias e de outras manigâncias conhecidas”, com que “o Estado paga a conhecidos grupos económico-financeiros o ‘mensalão’, que alimenta a sua gula devoradora”, sustentou o antigo ministro dos Assuntos Sociais.


“Infelizmente, o PS não está isento deste desvio de regras de gestão dos dinheiros públicos e desta forma engenhosa de tentativa de privatização”, lamentou António Arnaut, que falava sábado, à tarde, no auditório do Hospital Pediátrico de Coimbra, no fórum ‘SNS com futuro’, integrado na ‘Semana em Defesa da Saúde’, que será encerrado, ao final do dia, por António José Seguro.


A sustentabilidade do SNS, como serviço público de que nos orgulhamos” e cujos “resultados excelentes” nem “a direita ultramontana contesta”, não está em risco por causa da escassez de recursos”, defendeu o antigo dirigente do PS.


“A cupidez e consequente aversão dos grupos económicos que querem substitui-se ao Estado e fazer dos cuidados de saúde uma mera actividade mercantil” é que põem em causa a sustentabilidade do SNS, advogou António Arnaut.


“O SNS é um imperativo ético e constitucional, factor de justiça e de coesão nacional”, é, na perspectiva do seu fundador, “um cravo de Abril que não murchou, apesar das muitas malfeitorias sofridas”, nem “murchará enquanto o PS assumir as suas responsabilidades históricas e constitucionais”.


Em Janeiro deste ano ”houve menos 58 mil urgências hospitalares”, devido às novas taxas moderadora”, e, “apesar de terem aumentado as consultas, é lícito admitir que mais de metade daquelas urgências goradas eram casos graves, que poderão ter causado a morte” de um “número inusitado de óbitos de idosos”, advertiu António Arnaut.


Aqueles números, concluiu, são um “aviso, somado a outros casos recentes, de morte por falta de assistência ou de transporte, que o Ministério da Saúde deve escutar”, antes que “os sinos toquem a rebate”.

 

Líder do Bloco de Esquerda aplaudiu declarações de António Arnaut


O líder do BE, Francisco Louçã, aplaudiu sábado as declarações do fundador do Serviço Nacional de Saúde (SNS), António Arnaut, considerando que o PSD e o CDS têm levado ao "fanatismo absoluto" as regras da 'troika' neste sector.


"O PSD e o CDS levam isto ao fanatismo absoluto de aumentar as taxas moderadoras, agravar os custos, agravar as dificuldades de acesso às pessoas", lamentou Francisco Louçã em Oliveira do Hospital, no final de uma visita à feira do queijo.


No sábado, em Coimbra, António Arnaut afirmou que "o governo submeteu o SNS à tortura do 'leito de Procusta', sujeitando-o à desumanidade da sua visão neoliberal e mercantil".


Na opinião do líder bloquista, "para a defesa da saúde pública é preciso recuperar princípios de solidariedade, de seriedade para com quem sofre", fazendo um país melhor.


"É termos a grandeza do esforço para quem precisa. É essa é a diferença que a democracia tem que trazer e é por isso que eu aplaudo estas palavras de António Arnaut, que foram tão sensatas e devem ser ouvidas no país inteiro", frisou.


António Arnaut considerou que o sector privado tem "um importante papel complementar na prestação de cuidados de saúde, mas não deve parasitar ou viver à custa do sector público, através de convenções espúrias e de outras manigâncias conhecidas", com que "o Estado paga a conhecidos grupos económico-financeiros o 'mensalão', que alimenta a sua gula devoradora".


Francisco Louçã sublinhou que "pai" do SNS "tem toda a razão" ao fazer estas críticas, porque as parcerias público privadas "foram um roubo aos portugueses", não só na saúde, mas também na rodovia.


"Na saúde foram um roubo aos portugueses porque agora estamos todos a pagar, com aumento de impostos, com aumento das taxas moderadoras. Ou seja, quanto mais as pessoas precisam da saúde porque estão doentes, mais têm de pagar", criticou.


Na sua opinião, "isso é exactamente o contrário dos princípios solidários que o SNS instituiu" na democracia portuguesa, criada em Portugal para proteger as pessoas quando estão em dificuldades.


"Essa é a grande viragem: acabar com o roubo que destrói a economia para proteger as pessoas que precisam, na saúde, nos impostos, na economia, no controlo dos negócios da electricidade e no controlo das parcerias público privadas", acrescentou.


O fundador do BE considerou que "se a electricidade for vendida às empresas do Estado chinês" e "se no SNS, quem precisa de uma operação tem de pagar, então a democracia está diminuída".


Reiterou que tem que se acabar "com as imposições da 'troika', que querem destruir a saúde" e transformá-la "num privilégio dos mais afortunados".


Segundo Francisco Louçã, "quando a Brisa pede mil milhões de euros pela diminuição dos passageiros na A17 isso é um roubo" e "quando a EDP impõe quatro mil milhões de euros de rendas excessivas" também.


Igualmente "quando os doentes do SNS, depois de já terem pago os seus impostos, têm que pagar por estarem doentes, isso é um roubo", frisou.


Neste âmbito, defendeu que "Portugal precisa de ser um país que tem a seriedade de devolver às pessoas em democracia e em respeito" o que é preciso para haver mais condições de igualdade.


"Portugal precisa dessa grandeza, dessas soluções e desse esforço. E precisamos de sair desta corrida para o abismo em que o Governo de Passos Coelho, rompendo as promessas eleitorais, tem vindo a arrastar o país", acrescentou.
 

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