Passivo de farmácias à venda a um euro chega aos 4,5 milhões

05/12/2011 - 10:27

Distribuição precipitada de dividendos, stocks descontrolados, caixa e crédito das farmácias usados para pagar divórcios, casas, carros e férias sem ter em conta necessidades futuras como pagamento a distribuidores ou modernização. São muitas as razões encontradas pelos vendedores para a falência de farmácias e excesso de oferta no mercado de venda e trespasse, avança o ionline.

 

Apesar da desvalorização, nenhum admite que o negócio tenha deixado de ser rentável, passou apenas a ter de ser mais bem gerido: uma farmácia com uma facturação anual de um milhão era vendida por três. Hoje está no mercado a 1,2 milhões.

 

As farmácias a um euro são o produto mais recente, mas nem sempre a melhor escolha, alertam. Um grande intermediário ouvido pelo i, que prefere não ser identificado, tem neste momento 87 farmácias em carteira, 30 delas para escritura por um euro. Os passivos que os novos proprietários têm de assumir vão dos 800 mil aos 4,5 milhões.

 

“A explicação é que foram mal geridas. Já tive muitos casos em que se pagaram divórcios ou houve simples incapacidade para gerir”, explica ao i o vendedor, que em Novembro fechou três vendas. “É muito bom. Há um ano ainda havia mais procura que oferta. Agora é o contrário.”

 

Segundo a Associação Nacional das Farmácias (ANF), há 723 com fornecimentos suspensos, mil em falência técnica. João Cordeiro, presidente demissionário da ANF, disse ao i desconhecer quantas estão à venda por um euro. Mas um vendedor ouvido pelo i avança que serão cerca de 300, na zona norte, Lisboa e Algarve. Muitas abertas, mas sem linhas de compra junto da distribuição.

 

Através de motores como tuti.pt ou olx.pt é possível entrar em contacto com agentes com farmácias para venda em todo o país, mas a maioria diz que o negócio vive do mais do boca-a-boca e nem todos apostam no campeonato das insolventes. É o caso de uma consultora financeira do Porto, que também opta pelo anonimato. Tem 100 farmácias em carteira, entre os 900 mil e seis milhões de euros. “As que custam um euro acabam por acarretar milhões para o comprador. Só são vendáveis para grupos grandes, com margem para negociar. Não têm abertura na distribuição.” Mas, admite a intermediária, caso sejam contactados nesse sentido, é fácil arranjar. “É muito relativo. Até se pode preferir uma farmácia com passivo que saia mais cara pelo nome, ou localização. Noutros casos as pessoas preferem uma compra livre desse ónus.” O mercado está em retracção e mesmo as farmácias mais desafogadas ficaram mais baratas: “Praticava-se um factor de dois ou 2,5 sobre a facturação anual. Hoje 1,2 já é um excelente negócio”, revela ao i.

 

“Antes as margens davam para tudo, para os empregados roubarem, para férias, para casas. Hoje é preciso uma melhor gestão”, diz ao i o representante que tem as 87 farmácias. Assumir o passivo significa ter o dinheiro disponível. E os intermediários cobram ainda a sua margem: “São situações em que se pode negociar com os bancos, mas em grande parte as dívidas a fornecedores, que também estão com a corda na garganta, são para pagar logo”.

 

Jorge Sousa, outro intermediário contactado através de um anúncio na net, representa 25 farmácias, de 1,2 e 7 milhões de euros. A um euro só tem uma e é um negócio com pouca margem de manobra. “A rentabilidade que tem é nula e os passivos são grandes. Só custa um euro, mas acaba por sair a dois ou três milhões.” Explicações para a insolvência: “Má gestão. Excesso de stock, excesso de distribuição de dividendos. Chegava-se ao final do mês, havia mil euros, e não eram reinvestidos.” Da sua carteira, há quem queira vender para sair do ramo ou esteja a sondar o mercado. “A farmácia de sete milhões tem uma rentabilidade de 30%, é muito bem gerida. Hoje uma farmácia bem gerida tem margens de 15% a 20%, antes de impostos”.

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